segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Inviolável

Encontrei-me com a despedida pungente antes de qualquer movimento. Pelas grades, a fumaça refletida com as luzes e no teu cabelo... não soube medir por quanto tempo estive catatônica, talvez milissegundos. Os detalhes sucumbiram e se combinaram à ocorrência daquele encontro, daquele dia, daquele bar, eu te vi, mas quase não vi. E falei, como sempre falava, falei sem filtrar, sobre os prédios antigos, belos, porém pixados, sobre o dia que caí da escada em espanhol (havia exato um ano), sobre o quanto foi relativamente fácil chegar ali e...
Era como se tudo o que eu tivesse vivido até então fosse um ensaio para aquelas palavras ditas. Palavras. Eu vivo por ou para dizê-las. Palavras que muitas vezes morreram em mim antes de serem ditas, que estiveram na tua presença e que agora estão aqui. E tentei ouvir. Não ecoou o lado dolorido do passado nem mesmo nos silêncios desconcertantes. Foi isso. Foi o encontro, o passado, o que fomos e somos... Encontrei-me com todos os dias que não estive ao teu lado, e, ao teu lado, encontrei-me com minha existência bruta e incabível da presença dos teus cigarros. Quatro deles. Como um cheiro tão incômodo pôde se tornar relativamente agradável? Eu tenho explicações para isso, mas estou cansada delas, cansada dessa ladainha, eu só queria ter certeza da cor dos teus olhos. E soube. Em duas luzes noturnas distintas.
É cedo.
Uma vez eu tive a certeza que era tarde. Porém, é cedo. Um bocado cedo, aliás, mas é reconfortadora a ideia de ter tanto a dizer tão cedo. E eu falaria tudo agora mesmo, não me cansaria de olhar nos teus olhos e falar. Não me cansaria dos teus lábios de álcool e cigarro e de fazer você sentar e escutar. Não me cansaria nunca de ver como você levanta as sobrancelhas para algo que eu já disse antes ou para algo inconsistente e aleatório, pois a cada vez que fosse olhar nos meus olhos me veria como sou, me escutaria, como sempre grito e você escuta (mesmo que eu pense que não). E eu não vou me cansar se algum dia tudo reacontecer, nessa ou outra vida, pois você vai novamente me dizer do quanto se sentiu fora do corpo por saber que eu estava há poucas quadras da tua casa.
Mesmo que o sentido dos cigarros se perca, mesmo que eu me esqueça do copo que não usei ou do batom no lenço, mesmo que tudo se torne uma sombra escura e morna morando no instante fixo do passado, a consciência da vulnerabilidade ainda refletirá nas minhas palavras. Refletirá junto com ao medo da despedida que encontrei pouco antes de ti e que aconteceria no instante que eu atravessasse a rua.

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