domingo, 29 de maio de 2016

Isso é sobre mim...


A minha vida compete a mim? Correndo sem saber por que corro. Fugindo sem saber do que fujo. Vivo como alguém que, porventura, se enfiou na cena do crime, que não é culpado nem ileso, alguém que lida com as consequências pela infelicidade de estar onde não deveria e que se sente culpado sem ter culpa, que até já não sabe se é totalmente inocente ou cúmplice passivo. Eu me enfiei na cena no crime na sexta-feira quando notei que havia uma frase no muro do ponto de ônibus em frente ao prédio em que moro: “piroca torta”. Aí foi só eu botar um pé na calçada que um senhor escarrou ao meu lado, quase em mim, e eu quis chorar, pois tive a certeza abrupta que aquele dia tudo o que eu olhava, me olhava de volta com pena. A frase no muro, o escarro, tudo foi posto para me humilhar. Sei que a gente não deve questionar o destino dos nossos passos, só basta saber que o instante passa. O instante passa, menino, e a gente se lembra do que não conseguia lembrar: que quando é para ser, é pra ser. Sem rodeios. Mesmo que demore ou que passe. Parece filosofia cafona de bar, eu sei, mas são esses lirismos dos bêbados que acometem os pensamentos gêmeos brotados sem planejar e então pensamentos só são meros pensamentos e quando você nota já saiu do corpo. É esse tipo de filosofia que faz o mundo girar. O instante passa, entende o que digo? Passa depois do primeiro beijo, o beijo esquisito, poderia ter sido o último de tão estranho [como se fosse o primeiro da vida de ambos]. No ônibus, avistei uma moça que sorriu e sorri de volta, creio nunca ter visto aquele rosto na vida e veja bem, nem todo canto quer nos torturar. E aquele sorriso me lembrou do teu, pois foi o primeiro primeiro-sorriso-de-alguém que gravei depois do teu. É assim que a gente se lembra do que já não lembrava, do rosto que tentou recompor sem sucesso, dos comentários sobre a mancha de batom, de que nada encaixava, nada. Aquele casal no ônibus zombava de mim. Aqueles apelidinhos, aquele amor bobo e grotesco. Eu temia o amor bobo, de apelidos idiotas, do amor quase carente, dependente, mas sempre soube que esse seria o meu fardo. Depois de o instante passar, eu, você, ninguém suportava mais aquela conversa morna de quem não quer perder o contato e apenas isso, como o beijo, era incompatível, uma incompatibilidade que não tinha beleza, a gente não se completava, quase uma tortura. Como a vida é solúvel: num dia a gente está num quarto alheio, noutro dia no ônibus vendo uma moça bonita com cabelo platinado e vestido azul que sorri. Que sorri como você ou como eu quero que seja. Olhei cada detalhe da cidade, cada canto escrito, cada palavra que eu nunca tinha me dado conta, “doutorado não é a prova de balas!”, “Malandragem também não é” e “você acha que farei doutorado?”, “eu acho que sim, você não conseguiria parar por aqui!”, sendo que na verdade era tudo uma procura por algo que denunciasse a minha fraqueza e não encontrei mais nada. E [como um mal súbito de que as pessoas que amo irão morrer exatamente no dia que eu trata-las mal, também] pensei que quando penso em algo e depois penso em outra coisa a pessoa ao meu lado começa a pensar na primeira coisa pensada por mim. Como se os pensamentos fossem transferidos de uma pessoa para outra no instante que alguém deixa de pensar. Pensei que a moça de vestido azul poderia pensar em ti e fiquei observando até que chegasse ao meu destino e me despedisse dela sem me despedir. Quanta insanidade. A procura por algo só mostrava o quanto estava sozinha. A tua ausência foi gritante, pois é sempre um problema querer enxergar mais do que simplesmente se pode enxergar. À tarde fui à sebo perto de casa, ignorando a “piroca torta” e o sinal do escarro que ainda me olhava com pena. E me rendi e ali deixei que me desperdiçasse. Eu quis falar, ninguém poderia ouvir. Era muita dor, muita. Fingia que estava tudo bem, mas doía. Nunca imaginei que os livros da Virgínia Woolf significariam algo. Livros nunca lidos, doeram. Como me doeram! Não sabia nem qual deles escolher. Foi uma fuga. Um dualismo. Um querer escolher o próprio exílio. Um álibi para não ser coadjuvante na cena do crime, ser errada e certa ao mesmo tempo, entrar num labirinto embolando nas próprias fitas que você recusou porque não estava bem e não era por mim. Já não sabia mais correr atrás de uma parte enquanto estava perdendo todas as outras, ou se esperava passivamente que todas as partes se fossem de uma vez. Já não sabia se corria ou fugia, enquanto me perdi por completo. Não sabia mais e ainda não sei, mas só queria te falar que aceito como for, porque dói e porque eu me rendi. Um amor absurdo e submisso. Um amor cafona e bobo, como o do casal no ônibus, que tanto temi. Não me imporia em admitir ser mais uma dessas mulheres idiotas e maltratadas, me vestiria de qualquer uma delas para sermos mais comuns. Só queria que esse amor, ou qualquer coisa que seja ou que nome tenha, fosse mais que palavra escrita em papel, mais que frase desconexa, bilhete esquecido dentro da caixa, que fosse mais que isso aqui e agora. Que fosse mais comum. Pois somos comuns. Mas nada é tão ruim a ponto de não ser dito, nem porque corro ou fujo, ou porque fui pega na cena do crime que não cometi. Nada é tão ruim ou esquisito que não valha a pena um susto de línguas que se encontraram pela primeira vez e que se encontraram pela última.

16/04/2016 às 22:33

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