sábado, 13 de dezembro de 2014

Nunca escutou


Mais uma vez eu chorei em silêncio para você não escutar. E isso porque quando eu chorava quietinha, você não sabia que me importava. Que bobeira a minha! Agora, se choro alto, você também não escuta. E mesmo que eu grite, você não escutará. Nada disso adianta, porque você nunca mais vai saber de mim, pois não vou deixar. Não vou mais nem tentar me aproximar. Não me aproximo. Eu nem quero mais te dizer o que quis muito: “que bom que você apareceu para mim! Minha vida não havia de ter passado sem.” Agora é tarde, sei que é. Um bocado tarde, aliás. E mesmo ainda tendo o que falar, quero fazer jus à passagem do tempo. Eu falaria, se discasse meu número, falaria, se não fosse o teu medo de viajar. Mas você não escutaria.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Fiz o que tinha que fazer...


Depois daqueles dias eu vivi implorando mais fortemente por proteção dos céus. Pedia qualquer sinal que me fizesse acreditar que eu não estava sozinha, podia ser uma janela ou porta rangendo, um vento levantando folhas de uma árvore. É que a vida ficou pesada, sabe? Meus fantasmas internos querem sempre sair de mim e estou sem tempo para preenchê-los. Dia desses, meu psiquiatra falou que não há como fazer um trato com a gente mesmo, pois, à partir do momento que a gente impõe algo para si mesmo, isso deixa de ser trato. Depois disso, pensei que talvez eu tenha escolhido meu exílio. Não adianta orar. Eu sinto que sou sozinha. O pior de tudo é suspeitar que estou condenada a viver eternamente com esta coisa, esta doença...

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

E está aqui...



O nosso amor é comunal, não arde e tem jeito de manhã de sol que traz bilhetes debaixo da porta e passarinhos assoviando uma canção de outrora. E não dói, pois chega quando tudo já se foi e a gente não tinha mais forças para tentar continuar. Chega carregando flores na bicicleta, dizendo que é isso que é importante guardar. O nosso amor não faz alarde, não treme as pernas, não se vangloria. E não faz o corpo cair em si, pois cansou-se de perder a batalha vã de aprender a viver. O nosso amor transparece, pois criou-se por conta própria. Ele veio quando precisava salvar a alma, quando o mundo carecia saber que, o que é diferente, pode ser certo se a gente tentar. O nosso amor não vai embora, porque antes de acordar, o nosso amor já estava lá.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sobre florescer


Eu nunca aceitei a dor como uma condição para a existência humana (muito embora sempre sinta que é). E eu nunca quis agir com essas ignorâncias que impedem o amor de florescer. O mundo está um caos. 24 dias vivendo no meu casulo e só agora pude perceber o quanto deixo algumas relações humanas esmagarem minha autoestima. A verdade é que a gente sofre porque espera demais. Sei que isso é um grande clichê, que todo mundo sabe, mas, se a gente não esperasse, não passaria boa parte do tempo tentando entender porque as pessoas fizeram o que fizeram. O problema é que eu não sei amar sem receber amor em troca. E quando isso não acontece, dói. Quando vejo, a dor já está aqui.

sábado, 23 de agosto de 2014


Não vou lhe falar mais nada sobre mim, pois essa fala foi o motivo de você querer ir embora.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Dessa vez, sobre você


Te estender minhas palavras não mudaria nada. Apesar de todos os avisos, pra ti já facilitei com a palavra “amor”, já joguei-a no espaço, cometi a loucura sem remissão de espalhá-la aos quatro ventos. Mas hoje não sei e nem quero tentar. É sua vez de admitir que perdeu alguma coisa, morna e ingênua, de um sentimento valioso que não tem nome. Pois eu já li e vi. Vi com uma lupa. Um caleidoscópio. Uma luneta, até. E me importei, porque eu não sei fingir que está tudo bem e seguir tocando a vida como se fosse natural. Me importei, pois você amava cada objeto culturalmente empilhado e amorosamente empoeirado. Os livros. Os versos. Flores, cartas, objetos em sentido. A música que esteve em toda parte. E havia amor “like a rolling stone” que surgiu quando tudo isso foi assimilado. E agora? Você mudou tanto que até caçoa de tudo que já quis um dia. Você vive procurando por alguém que te encante com insanidades, leva uma porção de senhoras para dormir na sua casa, e nada muda. Pensa que quanto mais distorcido, torto, atravessado e sem fundamentos, mais lhe cativará. Agora, você pensa que a maior parte do mundo não sabe de nada, mas não vê que sua luta não tem causa e que sempre desfaz de quem te sustenta. Mas então porque volta para falar comigo quando nenhum lugar serve, quando todas as pessoas são desconhecidas e os móveis da sua casa ficam te olhando com pena? Porque você volta se nada aqui te serve? A verdade é que você guarda um vazio tão grande que as pessoas nem ousam te amar, pois não saberiam ser superiores ao que você já teve. Essas pessoas dariam tudo para ter alguém por elas assim como eu fui por ti. E mesmo que tenha passado, mesmo que não doa mais, tem algo aí que te alerta que perdeu alguma-coisa-de-um sentimento-valioso sem que movesse uma palha. E você não admite. A mão no queixo, a perna cruzada triste e o olhar que nunca se viu é o que sempre ecoa em sua vulnerabilidade, mesmo que você diga que não.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sobre a minha vida sem mim


Sabe como eu sei que nada foi em vão? Como eu sei que agora, apesar de tudo, tudo, ainda há uma sombra de algo valioso que nem tem nome? Eu não durmo desde que te conheci. Aí fui ao psiquiatra que me receitou remédios controlados e sugeriu que eu descobrisse “o que te traz satisfação?”.  Eu me lembrei de que, em alguma época da vida, eu já vivi sem esse mau-súbito, por isso perguntei o que você plantaria no seu quintal se tivesse um. E você me disse que plantaria temperos. Talvez não entendam nada. Talvez, se eu perguntasse para a minha mãe, meu irmão ou para qualquer outra pessoa, pensariam que estou louca, como sempre pensam (mas não falam), e me responderiam “Quê?” ou “Como assim?”, sendo que eu só queria saber o que plantar no quintal. Talvez as pessoas não entendam nada sobre quintais, sobre coisas úteis para plantar ou sobre ser quem a gente realmente é. Eu plantaria girassóis, porque acho bonita essa coisa de uma planta se revirar procurando pela luz. Você entenderia. Entenderia, pois sempre entendeu e sempre me deixa ser quem sou, sem reprimir as perguntas incoerentes, só me deixa ser e mais nada. Acho que satisfação é isso. Essa coisa valiosa que não tem nome. E você me perguntou: “mas quem é que não te deixa ser quem é?”.

E eu não entendia. Será que sou eu mesma?

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Defenestrar-te


Antes de atirar tudo para longe, pensei em te dizer tanto, mas tanto... e acabei ficando em silêncio. Sabe quando a Clarice diz que escreve como se fosse para salvar a vida de alguém? É mais ou menos isso que eu queria, só que minhas palavras nunca souberam fazer efeito. E agora, da única coisa que sei salvar a tua vida, é da minha própria vida. Olha, não estou mais tentando ser como antes fui e também não estou te pedindo nada. Não quero a tua vinda ou que o tempo voe, a única coisa que eu queria é que você soubesse que nunca valeria tanto à pena esperar por alguém como eu esperaria por ti. Eu acreditava em ti porque acreditava em mim e nada seria em vão. Mas agora é uma afronta: tudo, tudo pela janela.

Texto resgatado - março de 2011.

terça-feira, 25 de março de 2014

Das coisas que eu aprendi


Eu queria tua conversa de outrora, apenas isso. É engraçado lembrar que, há muito, um-menino-de-cidade-pequena-que-foi-morar-na-cidade-grande pudesse ter interesse por uma menina-da-cidade-grande-que-mora-na-cidade-pequena. Hoje quase já não temos mais ligação alguma, mas eu queria te contar do quanto a felicidade acontece quando a alma quer crescer, que eu aprendi que, nesse reboliço que é a vida, o silêncio é uma das coisas mais tristes do mundo. Tenho tanta coisa para lhe dizer, um grito sufocado, palavras abafadas pela falta de oportunidade. Tenho um medo inadmissível de morrer de silêncio... Sabe o que é? Descobri que tudo o que a gente tanto corre atrás é mero detalhe. O que a gente sonha, no fundo, no fundo, é uma coisa bem batida: amar até onde der.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sobre as pessoas que falam a verdade...


...e eu pensava estar respirando todo o ar do mundo enquanto, na verdade, me perdia, me sufocava.


Uma vez, você disse que as pessoas mais sozinhas do mundo são as que não se escondem da verdade dita. Hoje me lembrei daquelas vezes em que você mais se preocupava com o meu timbre de voz do que com o que eu queria dizer por detrás do som das palavras. Como você pôde? Como você podia pensar na porquice que é a minha voz enquanto eu tentava respirar todo o ar do mundo? Você me sufocava... o engraçado é que eu acreditava que tudo isso fosse troca (e não roubo). Ainda escuto aquelas músicas que eu cantava e quando me lembro que as pessoas mais sozinhas são as que sempre falam a verdade, eu vejo o quanto você esteve errado, o quanto você está longe e não levou nada com você. É tudo uma grande mentira: as pessoas mais solitárias são as que fingem e roubam o ar. São as que respiram por aí enquanto outros que se sufocam. As pessoas que falam a verdade são as que se preenchem de si mesmas, e não do ar que é de alguém. Essas pessoas nunca estão sozinhas, porque elas têm. Elas se têm. E é tudo delas. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Porão


Foi perto dos dias tortos, dias em que eu quis fugir de casa, dias em que as paredes tentavam me abraçar... descobri que a gente aprende tudinho nessa vida, menos esquecer. O passado mora aqui no presente, dentro dos livros – sempre começados, nunca terminados – mora nos dedos quando escrevem as palavras, mora grudado nas paredes da casa toda. E mesmo que a gente pense que não, numa súbita sensação de compreensão do mundo, tudo vem à tona, as páginas dos livros saem voando (as palavras não saem), as paredes desmoronam, tudo, tudo cai. Foi perto daqueles dias que descobri que a gente não sabe esquecer. Não sabe e vai viver para sempre assim: sem solução.

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