sábado, 1 de janeiro de 2011

Diálogo Noturno ou Escrevendo a Vida


K: Eu gosto de escrever. Muito. Mas por esses dias, eu só tenho pensado que escrevo e não vivo.
F: Se não vive, não tem o que escrever.
K: Eu deveria parar com essa coisa.
F: De escrever?
K: É!
F: Mas você muito gosta. Não se deve parar, só viver antes.
K: Como se tudo o que sai da gente é porque já entrou um dia?
F: Sim, e talvez ainda esteja aí.
K: Ou talvez eu esteja esvaziando...
F: Não seria um sinal?
K: Acredita em sinais?
F: Não seria estranho pensar que as coisas não tenham motivo algum?
K: As coisas nunca tem. Nunca.
F: Ou Sempre.
K: Sempre é nunca acabar.
F: Nunca acaba.
K: O que?
F: Estamos escrevendo e não vivendo.
K: Não?
F: Não.
K: E isso tudo é o que? É sempre? É nunca?
F: É tudo.
K: Então vamos parar de escrever e viver antes?
F:
K: Alô?
F: Já parei.
K: Mas você disse que não se deve parar.
F: Mas pare. Agora.
K:
F:
K:
F: Viver assim é pior que não viver nunca.
K: Pior que viver assim é nunca acabar.
F: Estou achando que escrever também pode ser vida.
K: Quando compartilhada?
F: Quando.
K: Quando?
F: Sempre.
K: É escrevendo por cima da vida que vai se construindo o sempre.
F: Vamos começar de novo?
K: E dá?
F: Agora...
K: Veja bem, eu gosto muito de escrever, mas por esses dias, eu só tenho pensado que escrevo e não vivo.
F: É que a gente escreve o sempre por cima da vida.
K: Eu não deveria parar com essa coisa?
F: De escrever?
K: É!
F: Não. Nunca.
K: Nunca é sempre ao contrário.
F: Sempre é nunca acabar.
K: Que nem isso tudo?
F: Não seria um sinal?
K: Não seria estranho pensar que as coisas não tenham motivo algum?
F: Estamos escrevendo por cima da vida.
K: Estamos escrevendo antes de viver.
F: Se esvaziando?
K: Talvez ainda esteja aqui.
F: É um sinal.
K: Vivo fazendo isso.
F: Sim. Sempre.
K:
F: Você vai parar com essa coisa?
K: De escrever?
F: É!
K: Eu deveria sempre ou nunca?
F: Nunca é igual sempre poque não acaba. Nunca é sempre.
K: É esse o motivo de tudo.
F: Tudo faz sentido.
K: Por que não sei viver de outro modo.
F: Se não seria estranho?
K: É.
F: É.


(Diálogo que - quase - tive com Felipe Patron).


1 Comentários:

  1. Indiquei um selo para o seu blog: http://gavetaselixeiros.blogspot.com/2011/01/agradeco-muito-candida-matos-dona-do.html (:

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