domingo, 28 de fevereiro de 2010

Breves Notas Sobre o Voar



I

& o pedaço
azul cerúleo se deu
à partir de que, olhando para cima,
saltei.
Acreditando, eliminando a gravidade,
flutuei.
Pisei no ar como se fosse sorte,
abri os braços como se fosse dia,
subi pro céu como quem tudo fia,
dormi na noite como se fosse morte;
e não quis descer nunca,
nunca mais.

(04 de maio de 2008, ás 21:56).
II

A certeza de desmanche não as impediu de voar.
E foram sumir céu adentro,
bolhas de sabão.

(06 de maio de 2008, ás 15:25).
III

_O que encontramos sobre as nossas cabeças? – com ar de quem tudo sabia. –Ora! Os aviões.
E não recordou chapéus,
e passarinhos,
e nuvens,
e a mim.

(08 de maio de 2008, às 18:05).

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Culpa do Chá


Atraio tudo que é invertido.
Distraída, devo ter perdido algum pensamento de mim quando era criança, uma vez que meus olhos não conseguem se pregar e adormecer. Engraçado o fato de eu nunca conseguir mandar outros pensamentos pro porão da memória, daqueles pensamentos que queremos amontoar num canto vez em quando.
Descobri certa vez que se eu bebesse café além da conta, ficaria com um turbilhão desses pensamentos e aí era quase impossível me distrair de mim mesma; vai ver que era esse o motivo de eu sempre desejar a monotonia de dedilhar o violão. Decididamente, o café por chá troquei.
Sempre estive tentando parar de balançar os pés debaixo da mesa quando, de algum modo, ele se aproximava dos meus pensamentos, mas quem é que consegue calá-los? Culpei o chá, mas não sou de reclamar de pequenas coisas e, apesar dos meus fortes argumentos, era o único ali que eu não julgava - nem mesmo por pensar tanto quanto eu.
Falávamo-nos constantemente em dias “feira”, e eram os dias em que eu costumava tomar mais chá. No dia em que ele me disse que chá é pior que café, eu tentei parar. Não via mais televisão com receio de ver algum violão ou algo que remetesse a chás, porque, se eu me lembrasse dele, eu teria insônia. Minha cabeça começava a assobiar uma canção (quase) qualquer, que de algum modo era dele.
E, com o passar dos dias, tudo foi sendo dele. Eu fui me perdendo para cada pedaço de palavra, e me vendendo aos meus pensamentos, mudando o significado dos meus próprios objetos, me trocando em montes, me trocando por ele.
É exatamente quando encontramos o outro que vamos nos perdendo de nós mesmos, e eu não queria deixar que eu partisse de mim. Dor maior que tomar consciência é ir vivendo de mentirinha quando o que a gente era, na verdade, já morreu...
Naqueles dias, eu o vira ruir diante dos meus olhos. Deitei na cama mas não dormi, mesmo sem o chá, mesmo sem o assobio de qualquer canção, eu era a mesma, ainda tinha insônia e estava a viver uma vida toda pra dentro. Ao avesso. Como sempre foi.
A verdade é que a gente nunca ama a carne e os ossos de alguém. Ama-se os fortes argumentos e os pensamentos iguais. O modo como os olhos desse alguém se reviram com ironia ou quando penetram na alma nos encarando. O jeito de pisar no chão e as tristes despedidas. Ama-se o tempo gasto, o jeito invertido, o sorriso, o coração, o violão. Mas não a carne e os ossos. Porque, aí, esse alguém ia ser igual a gente. E ele não é. Nunca é.
A única solução que encontrei foi tentar – outra vez - mandar esse turbilhão de pensamentos para o porão da memória, fechar meus olhos novamente para tentar adormecer, pois o melhor modo de se ver na escuridão é com os olhos fechados. Cansei-me de pensar. Levantei-me, sentei no sofá e liguei a televisão. Estava passando um comercial de café.

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