terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Quase choveu...


Talvez a chuva finalmente venha hoje visitar minha casa e essa possibilidade é o que me faz querer te escrever. E eu não queria escrever qualquer bobagem, qualquer palavra desconexa e sem sentido, mas sim sobre o que eu aprendi nos últimos dias (mesmo que o que tenha aprendido seja muito pouco, complicado, confuso ou seja qual for o adjetivo que insiste em querer me dar). Hoje eu aprendi que a chuva só cai quando a gente desiste de esperar. Naquele livro, ela dizia que vez ou outra o céu chove para a gente não chorar... acontece que, hoje, o dia todo quase choveu, mas não caiu uma gota sequer. Seria um sinal para que eu pudesse chorar sem ressentimentos? Quase choveu. E esse “quase” se fez tão presente em fevereiro: quase um fim, quase um começo, quase uma distância... E vou te dizer a verdade mais profunda que (quase) aprendi: antes, muitas palavras morriam em mim antes de serem ditas, eu vivi de palavras para dizer ou por dizer, mas agora o teu sentimento me acolhe e todos os dias eu quero então te contar da saudade que você não sabe que senti e dos suspiros que andei dando por aí. Eu me lembro da tua felicidade ao falar da menininha mais linda do mundo e de como você é sincero quanto ao sabor dos legumes. Eu me lembro do quanto me sinto quentinha e aconchegada perto de ti quando o ar condicionado está ligado e me lembro de ti frouxo de rir da minha bobeira. Quando lembro dessas nossas coisas bobas, dou risada baixinho e meus olhos ficam carregados de lágrimas. Hoje, eu queria muito escrever pra te dizer que  não choveu, pois as gotas derramadas foram as minhas.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

sábado, 24 de dezembro de 2016

Texto descomunal ou precisamos falar sobre dois mil e dezesseis


Desde pequena.
Eu me lembro de ter muito medo de enlouquecer. Mais de um quarto de século se passou da minha vida, a psicologia afirma que essa é a idade de risco qual a psicose acontece, mas ainda nada se manifestou, creio. Mesmo depois de tudo, nada. Também me lembro que uma das primeiras lições que aprendi é que, em geral, as pessoas se espantam quando escutam falar sobre a morte e isso deve se dar porque tudo tudo tudo acaba um dia. Sem voltas ou rodeios. As coisas acabam.  
Eu não me perdoo por ter deixado minha plantação de feijão morrer quando eu era pequena, daí por diante não deixo que minhas palavras consigam morrer também e todas elas se acumulam no meu corpo como vestígios de doença. Sei lá, parece que eu fico masturbando meus pensamentos o tempo inteiro: sempre no mesmo movimento, nunca numa conclusão final. Quando estou feliz, penso em o que fazer com a felicidade e, quando estou triste, em o que fazer com a tristeza. Não chego a nenhuma conclusão em ambos casos e sigo obsessiva por pensar. Pensando, pensando...
Em dois mil e dezesseis, tive uma série de pensamentos que só descansaram quando outro pensamento novo substituía o antigo. A Bianca, o Lucas, a pesquisa, a doença, o trabalho perdido, o vô... Passei o ano todo repetindo para mim mesma que ficaria tudo bem, “ficará tudo bem”, fiz um milhão de planos B, C, D, E... nada adiantou, nada curou. A cura nunca fez curar.

Um dos últimos pensamentos obsessivos que eu tive:
a vida sem o senhor é como outra versão da própria vida.

A rotina cumprida, a rotina quebrada. Um dia bom, um dia ruim, outro pior. Pessoas hostis e pessoas hospitaleiras, algumas que são empáticas e outras que não têm educação nem no velório. Mas nada disso importa, isso não é nem secundário, é como se não fosse nem opção. O que importa nesse instante é que tudo acaba um dia.
Às vezes penso que tudo isso é muito triste, porque de fato a gente vai se acabando até o ponto em que se esquece (nem se lembra de lembrar) e depois de um tempo “olha como o tempo passou”, nós vamos pensar. É estranho, triste, porém bonito: ainda existimos, mas acabou, morreu. Os pensamentos obsessivos são substituídos. As tristezas são substituídas. Agora nós somos apenas aquilo que fomos um dia – isso não mudará.
[Desde pequena, deixando o teu lugar na mesa, deixando a coxa do frango, pedindo bala de coca-cola (a mesma que levaram no seu velório, vô). As vezes que dormia na rede, as vezes que dormia de bruços com os pés levantados (eu faço igual, sabia?), quando desenhava cavalos nos cadernos antigos. Sua mania de ficar agachado fumando ou cortando as unhas, quando me pedia para pintar os seus cabelos, quando fazia piadas que eu não entendia ou quando me contava de como era a vida na fazenda cachoeira (porque eu trabalhava lá, e aí te levei um dia para ver, lembra?). Eu sempre ia almoçar na sua casa só para ver o senhor e a vó. Eu ia tomar café da tarde só para fazer o senhor comer um pão inteiro, reclamando por qualquer besteira. E quando o senhor adoeceu, eu sentia a tua tristeza em cada respiração fragmentada. O teu medo de morrer, vô, eu queria muito ter dito que não precisa ter medo, podia morrer porque morrer não dói.]
É a hora?
Tem coisas que a gente tem que saber a hora de deixar morrer. Por mais que cause dor, pensamentos obsessivos ou que a gente nunca na vida se perdoe por isso (como quando a minha plantação de feijão morreu). Mas é que tem coisa que não apaga, não. Eu sinto que serei um estandarte de tudo o que vivi ad infinitum.
Tem tanta coisa aqui que nem cabe.
Tanto para falar.
Que sorte a nossa ter vivido algo assim.
Uma dor em cada um, uma quase-morte ou morte completa em cada um.
E não importa que o assunto seja a morte, pois antes de tudo isso acontecer, em todos os dias que vivi, criei milhões de pretextos para querer morrer no dia seguinte, eu não me importaria. Depois de dois mil e dezesseis eu percebi que meus grotescos-pontos-de-vista sempre foram pequenos demais para eu ter tanta mágoa acumulada. Hoje eu escrevo para que as palavras possam morrer em paz, para que nós possamos ficar em paz, mesmo que escrever aqui e agora seja só uma história repetitiva que apenas espera um motivo minimalista que me faça encontrar libertação. E acho que, olha, pela primeira vez em todo esse tempo, posso dizer que por mim está tudo bem. Está tudo bem.



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Me denuncio


Falar é quase uma armadilha. Silenciar é algo tão teu que me parece que todo silêncio do mundo nasce de ti. Em todo silêncio que calha na minha vida desde que voltei para a casa, me lembro de ti, do teu jeito de se manifestar com um som não sonoro. E quando me lembro de ti, me lembro de como me olhava, parecia que olhava teu passado e isso me matava por dentro. Você me matava surdamente. Eu ainda não te falei, não sei se falarei um dia, mas quando cheguei, o calor dessa cidade me deu um gosto amargo na boca ao perceber que coisas aqui não fazem mais tanto sentido sem você para eu contar. Qualquer que seja o que eu escreva agora será com o coração na mão, porque eu sonhei com você de manhãzinha e pensei que nunca mais poderia lhe dizer sobre uma coisa ingênua dessas. Nós tivemos uma infinidade de palavras trocadas, pois foi isso o que mais tive de ti; e sempre que penso sobre você me ponho a imaginar que talvez tudo tenha sido apenas um jogo de palavras e silêncios. Desde então eu ando tão calada... O meu problema é o contentamento, menino, o psiquiatra disse assim: “o seu problema é o contentamento”. Você sabe melhor que ninguém dos fantasmas que assombram meus pensamentos quase-assumidamente-suicidas, mas alguma coisa que não sei o quê é, tem levado qualquer outro tipo de pensamento embora e pintado você todos os dias desde que pus os pés aqui. Quando eu me deito, me lembro de como você sabe se importar com certas coisas que ninguém mais se importa, de como diz coisas absurdas que ninguém mais diz, de como sabe olhar detalhes ao relento e penso que talvez você nunca nem se lembre dessa pequenez. Isso é dolorido. E ninguém me sabe mais que ti, por isso não me contento nunca. Entende? Não me contento porque eu sei que uma palavra minha mudaria tudo e isso ressoa em todo canto. E é ai que tudo vira uma grande bagunça aqui no meu labirinto: por que diabos eu acho que vou te incomodar se falar sobre isso? Por que acho que vou incomodar se eu chorar? O problema está na minha dimensão dramática que sempre erra o tom. Eu errei o tom com você porque não soube silenciar meus pensamentos. Mas imagine só, menino, não sei silenciar nem o que escrevo, quem dera silenciar os pensamentos. Mas é que um dia desses, misturando devaneios, lençóis e pensamentos, pensei de novo em ti, que eu precisava, de alguma forma falar que, agora eu vejo, o contentamento só existia quando havia a possibilidade de te encontrar novamente. Eu precisava falar que as coisas não fazem mais tanto sentido, pois você era o meu contentamento. É isso. Era você. Veja bem, eu escrevo tudo isso, pois não posso te falar. Eu não posso mais quebrar o seu silêncio agressivo e te incomodar com a minha falta de contentamento, pois fui eu quem te mandou embora. E, agora que te mandei embora e você não tentou voltar (nem sei se quis tentar), também me sinto agradecida pelo tempo que você ficou porque quis ficar e pelas palavras que disse porque quis me falar.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A vida é solúvel


Hoje eu quis sumir daqui.
Você nem sabe onde diabos seja “aqui” e é tão assim: tão impreciso. E é tão assim que eu te sinto: tão incerto. Eu sinto muito. É como se, de um para dois, não pudesse esperar nada. Como se, mesmo voltando à rotina-da-vida-real, algo ressoasse que não, que não adianta fingir, há algo aqui, bem aqui, está vendo? Há um furacão abafado, há urgência.
A vida é solúvel.
Me dá a tua mão, menino, eu quis falar. Foi quase uma prece. Vamos ver tinta azul, eu quis falar. Pintar algo comum em algo incomum, minhas mãos, teu toque, você decidiria. Não tenha receio, não. A gente foi como deu, sem saber quem deu a mão para quem, numa fusão esquizofrênica de calor com frio, tocados adentro pela Nina Simone em preto-e-branco que virava cor passo a passo, como filme mudo.
Segurando tua mão, decorei como eram as pontas dos dedos calejados pelos instrumentos de corda e perdi parte de mim, sem saber se valeria, sem saber se deveria, sem saber [ser quem podia enquanto podia]. Estávamos presos naquele quarto por um cartão de acesso à porta e por um ou dois silêncios. Em algum lugar no passado, ainda estamos naquele quarto, no instante fixo. Talvez agora você não exista aqui além daquele instante ou do que imagino, pois a vida é solúvel. Você não está aqui, nunca esteve, não sabe nem onde diabos é aqui. E como posso exigir que um dia saiba onde é exatamente aqui? Se me prometeu não prometendo, se me disse que não tem controle algum sobre a tua vida e eu sou obrigada a me contentar com essa maldita fantasia fantasma. Que essa fantasia de que a vida pode voltar a ser real como já foi outrora e. afinal, se saiu de mim, sou eu.
Sou eu.
E não me esqueço, pois é isso o que faz com que eu seja eu mesma. Sou eu. E mesmo que  eu continue me lembrando sozinha de tudo isso, mesmo você se esqueça dos detalhes, do maldito quadro na parede amarela, do copo que não usei, da tomada que faltava do lado da cama, mesmo que tudo se torne para ti nem a metade do furacão que é para mim, mesmo que tudo se desfaça em mil partes e se esqueça da minha vulnerabilidade ao atravessar a rua... ainda assim eu queria saber se me olhou no instante que atravessei a rua pensando que seria despedida definitiva.
Queria tanto saber se, no instante que me virei e fui embora sem olhar para trás, você permaneceu por um tempo olhando meus passos, se permaneceu lá imóvel, naquela rua, em frente aquelas escadas com ladrilhos coloridos escritos e desenhados que as pessoas interditaram para que não subíssemos, queria saber se olhou a sombra dos galhos de outono na calçada enquanto eu fui embora para o lado oposto. Saber se, caso não fosse minhas últimas horas naquela cidade, voltaria correndo me ver como se fosse a coisa mais certa a se fazer. Saber se alguma palavra mudaria tudo como mudou naquele instante, alguma palavra que faria você largar tudo e ir correndo me ver mais uma vez. Queria tanto saber se...
(...)
Hoje eu queria sumir daqui, pois estou presa nesses instantes fixos e nas possibilidades dos acontecimentos, presa em cada coisa pequena e ingênua porque, agora, essas coisas são tudo o que temos. Alias, são tudo o que eu tenho.  E enquanto tudo isso ainda existir, cada instante será uma nova razão para escrever. Aqui. Assim. Mesmo que impreciso ou torto, sendo como sou enquanto posso: é que, em cada instante, foi como se eu te amasse em cada segundo do tempo. Hoje esse furacão grita e é um espasmo de lucidez. Eu quis te falar no dia seguinte, mas não conseguia organizar os pensamentos de uma forma menos barata, redundante e cafona. Ainda não consigo. Isso foi o mais próximo que eu soube. E eu sei que você sabe, que sabia, que sempre soube, e apesar disso ou de qualquer outra coisa, agora sim você pode dizer que me sabe.
Agora você me sabe
Sabe que eu sempre amei o que você era e não o que me mostrava.


11/04/2016 às 23:17

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